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Gerenciando a Emoção: Acolhendo Histórias de Violência Contra a Mulher

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Por Delegada de Polícia Anita Klein - Titular da DEAM Porto Alegre e Coordenadora Estadual das DEAMs RS

Em 2013 foram mais de treze mil ocorrências registradas na Primeira  Delegacia de Polícia Especializada no Atendimento à Mulher em Porto Alegre. Treze mil mulheres que sofreram algum tipo de violência dentro do âmbito familiar. Lugar que deveria simbolizar proteção, segurança, bem viver. Treze mil mulheres que protagonizaram uma história de medo e conseguiram, de alguma forma, romper a cultura milenar ensinada de geração em geração de que o homem tem direito de utilizar a força física para impor sua vontade sobre a mulher. Treze mil mulheres que bateram à porta da DEAM demonstrando pedido de socorro em seus olhares, mesmo sabendo que estariam expondo sua intimidade, relatando suas paixões, mostrando seus medos. Pediram socorro porque confiavam que as policiais civis da Delegacia da Mulher poderiam ouvir com atenção suas queixas, dar orientação segura, indicar um caminho a seguir, oferecer um atendimento humano e solidário.

Maria veio de longe, precisou utilizar dois ônibus porque não se sentiu à vontade para fazer o registro na Delegacia do bairro. Lá, geralmente é um homem o plantonista e ele não tem muita paciência para atender ocorrência de Maria da Penha. Outro dia ela foi lá e o policial disse que era melhor registrar na Delegacia da Mulher. Afinal, eles dizem que elas registram e depois querem retirar a queixa. Como se eles tivessem o direito de julgar se a mulher quer desistir de processar o companheiro. Ou se quer voltar e dar mais uma chance. Ou se ainda não está suficientemente estruturada para romper com o ciclo da violência. Então ela preferiu ir até o Palácio da Polícia e fazer lá o registro. Lá ninguém vai julgar sua atitude mesmo que ela já tenha feito outros registros antes e “retirado a queixa”. Lá ela pode pedir de novo a medida protetiva e se o caso for muito grave, a Delegada vai lhe atender pessoalmente e ela vai ser encaminhada para o serviço que necessitar. Até mesmo casa de abrigo se correr risco de vida.

Às vezes demora. Sim, nesse dia vai demorar. O plantão está cheio, parece que tem nove mulheres para serem atendidas na sua frente e já são 10 horas. Há dias que muitas sofrem violência! São olhos roxos, braços enfaixados, cortes nas pernas, marcas de queimaduras! E Maria aguarda no plantão da DEAM sabendo que sempre há casos mais graves que o seu, mas que mesmo assim não pode mais aceitar viver naquele ambiente violento que vive. Afinal, seu companheiro é alcoolista e fica agressivo quando bebe. Pior é o marido da outra que é viciado em drogas e quebra tudo dentro de casa quando ela não dá dinheiro para ele comprar drogas. Sim, aquela de blusa vermelha que sofreu a queimadura disse que o marido ainda bate nas crianças. Maria jamais iria permitir que o marido batesse em seus filhos. Isso ela não suportaria. Já chega a expressão de medo que se estampa nos olhos das crianças quando ele chega bêbado. A menorzinha chega a tremer e se esconde apavorada. Meu Deus o que vai ser dessas crianças...

A policial chama outra vítima para ser atendida. É a vez daquela de blusa vermelha. É a primeira vez que ela vem registrar, mas já apanhou muitas vezes. No começo era só xingamento, humilhação. Mas durante nove anos vivendo juntos a situação só piorou. Nasceram os filhos e as dificuldades aumentaram A pouca renda não era suficiente para a família e ele ainda gastava com drogas. Ela precisava esconder o dinheiro que recebia como doméstica senão ele pegava para comprar drogas. No começo era só maconha, mas quando ele começou a usar pedra a vida virou um inferno. Agora ele tentou matá-la jogando álcool no colchão e ateando fogo. Queimou tudo dentro de casa. Graças a Deus que os vizinhos viram e conseguiram conter as chamas. A casinha resistiu. E ela conseguiu tirar as crianças de dentro de casa. Sofreu queimaduras nos braços, mas já foi medicada. Agora vai pedir medida protetiva para que ele não se aproxime mais dela e das crianças. Ele fugiu, não sabe para onde. Como a casinha fica no mesmo terreno onde vivem os pais dele, ela não tem para onde ir com as crianças. Não há parentes aqui porque ela veio do interior com o marido logo que se conheceram. Ela e as crianças estão apenas com a roupa do corpo. Vai ser encaminhada para a casa-abrigo com as crianças para ficar lá enquanto tenta reestruturar sua vida. Ainda bem que a Delegacia da Mulher faz o encaminhamento. A policial relatou a situação para a Delegada e ela orientou a mulher e garantiu que vai representar pela prisão preventiva do agressor. Agora eles vão presos!

E aquela que está com o olho roxo parece tão jovem...Não deve ter mais de dezesseis anos...Ela está acompanhada de uma senhora que deve ser a mãe. Como pode uma jovem ter sido agredida assim? Maria pergunta e fica sabendo que a jovem foi agredida pelo ex-namorado. Um rapaz de dezenove anos que ela conheceu há seis meses. Ela rompeu o relacionamento porque não estava satisfeita com o namoro e o rapaz não aceitou. Começou a persegui-la, enviava mensagens ameaçadoras, até que no dia anterior esperou ela sair do colégio e ofereceu uma carona dizendo que queria se desculpar e podiam ser amigos. Ela confiou e ele levou-a para um lugar deserto. Desferiu vários socos e a estuprou. Suas súplicas, seus gritos, suas lágrimas, nada o conteve. Largou-a há quatro quadras de casa, como se larga um saco de lixo na calçada. Tão jovem e já sofreu violência física e sexual. Esse trauma vai lhe acompanhar pelo resto da vida. Como confiar novamente? Não é possível que namorado tenha agredido namorada. Essas novas gerações já deviam saber que é inadmissível a violência de gênero numa época em que se prega a paz e a igualdade entre homens e mulheres. Já deveriam ter rompido os conceitos machistas de que podem usar a violência psicológica, física, sexual para impor sua vontade nos relacionamentos. Já deveriam ter abandonado o primitivo sentimento de posse em relação à mulher. Já deveriam compreender que a mulher é um sujeito e não um objeto.

Chegou mais uma mulher! Ela parece muito assustada, os olhos arregalados. A recepcionista atende, colhe seus dados e informa que há duas policiais registrando ocorrências e pode demorar um pouco. Ela senta, desconfiada, e aguarda.

Maria pede informações e vai ao banheiro. Quando retorna a jovem que foi estuprada pelo namorado já está registrando ocorrência. A Delegada de Polícia orienta a policial para tomar o depoimento da vítima e fazer o Auto de Reconhecimento Fotográfico para que a jovem não precise voltar outro dia na Delegacia. Outra mulher que não apresentava nenhuma lesão também estava sendo atendida. Essa tinha sido ameaçada de morte pelo ex-marido quando ela telefonou pedindo que ele depositasse a pensão alimentícia das crianças. Já não era a primeira vez que isso acontecia e ela já registrara outras vezes. Ocorre que na hora da audiência ele se comprometia a pagar a pensão regularmente e ela sempre desistia do processo.

A mulher que estava com o braço enfaixado foi chamada pela policial e relatou como conseguira uma fratura na clavícula. O marido com quem convivia há mais de vinte anos lhe empurrou para fora do carro em movimento. Discutiram enquanto ele dirigia e ele abriu a porta e lhe empurrou. Por sorte a velocidade era baixa em razão de que a rua não era asfaltada. Com isso ela fraturou a clavícula. Poderia ter sido bem pior. Ela quer registrar a ocorrência, mas não quer medida protetiva contra ele porque tem medo que ele se vingue e faça coisa pior. A plantonista faz encaminhamento para o centro de referência estadual para que a vítima receba acompanhamento social e psicológico.

São chamadas mais duas vítimas para registrarem suas ocorrências. Essas permaneceram em silêncio durante todo o tempo e Maria não soube de que se tratava. Uma delas estava bem vestida, óculos escuros, salto alto, bonita. Será que mulheres assim também sofrem violência por parte dos maridos? A outra era uma mulher jovem com um bebê no colo. Parece que queria registrar ocorrência contra o cunhado que teria lhe chamado de puta e vagabunda.

Agora faltam apenas duas antes da Maria. E depois será a moça com os olhos arregalados que ainda não falou nenhuma palavra. Ela parece estar muito agitada e apreensiva. Levanta toda hora, vai até a porta, parece que está se escondendo, com medo que alguém a encontre.

As plantonistas chamam mais duas vítimas. Uma delas havia sofrido um corte com uma faca na perna esquerda. O curativo ocultava a lesão, mas o boletim de atendimento médico diagnosticava uma lesão provocada por instrumento cortante de aproximadamente dez centímetros. Questionada pela policial a vítima informou que o médico precisou fazer vários “pontos”. A lesão era decorrente de uma briga que teve com o companheiro quando os dois estavam embriagados. Sabe que jogou alguns objetos nele, mas não sabe se o atingiu. Quando sentiu o ferimento começou a gritar e o próprio companheiro levou-a ao hospital, fugindo logo em seguida. Já brigaram outras vezes, mas ele nunca tinha usado faca. Agora estava com medo e quer se separar dele. A Delegada de Polícia pergunta se ela tem para onde ir e a vítima informa que vai para casa da mãe em Viamão.

A outra vítima registrou ocorrência de que está sofrendo perturbação da ex-mulher do seu atual companheiro. Ela liga e envia mensagens dizendo que ele vai trocá-la por outra da mesma forma que fez com ela. Quer apenas que a mulher deixe de incomodá-la. Faz o registro de ocorrência, mas não quer representar criminalmente, quer apenas deixar registrado.

Finalmente Maria é chamada pela policial plantonista para efetuar o registro da ocorrência. Ela diz que não suporta mais viver assustada, com medo, apreensiva, sempre esperando para saber se o marido vai beber e se tornar violento. Até mesmo o almoço de domingo tem sido um inferno. Ele é alcoólatra e não admite. Não aceita fazer tratamento e tornou insuportável a vida dela e dos filhos durante todos esses anos que vivem juntos. Agora ela quer se separar e precisa ajuda. Ontem à noite ele chegou embriagado e perturbou a noite inteira. Ameaça matá-la se ela se separar. Grita, xinga, humilha, amedronta os filhos. Maria pede medida protetiva para que ele saia de casa.  É encaminhada para a Defensoria Pública para ser orientada sobre a separação do casal, guarda dos filhos e pensão alimentícia. É orientada ao Centro de Referência para receber assistência social e psicológica.

Maria encerra sua ocorrência e sai agradecendo pelo bom atendimento que a policial plantonista lhe dispensou. Quando sai percebe que a moça de olhos arregalados já está sendo atendida e que já há várias outras vítimas sentadas no plantão aguardando atendimento. É um ciclo que nunca termina, pensa. Cada uma com uma história de tristeza, medo, violência, infelicidade.

A Delegada de Polícia foi chamada para atender a moça de olhos arregalados. Ela havia registrado ocorrência de que a mãe se encontrava em cárcere privado praticado pelo pai e pelo irmão em uma cidade da região metropolitana. Estava muito amedrontada e jurava que não poderia voltar para casa. Queria ir para um abrigo onde não fosse encontrada. A policial telefonou para a assistente social da casa-abrigo e ela veio buscar a jovem. A Delegada conversou com a vítima e achou estranha a história. Fez algumas pesquisas e percebeu que já havia outras ocorrências envolvendo a jovem, inclusive de fuga de casa psiquiátrica. A Delegada telefonou para a mãe da moça, uma idosa doente que relatou que não estava em cárcere privado. Sua filha era esquizofrênica e inventara essa história. A moça saíra de casa pela manhã dizendo que iria procurar emprego e não retornou. Não havia quem viesse buscá-la. Ela não poderia ir para a casa-abrigo, afinal a moça precisava de atendimento psiquiátrico. A jovem estava transtornada com mania de perseguição e suplicava para a Delegada que não a levasse de volta para casa porque seus pais eram pedófilos, estelionatários, falsificadores, etc... Era uma jovem com boa instrução, se expressava bem, havia concluído o ensino médio. Fora casada, mas o marido a abandonou.

Enquanto era providenciada uma equipe de acolhimento para encaminhá-la ao hospital, a moça conversou durante muito tempo com a Delegada. Criou um vínculo de confiança e segurança que não queria sair da Delegacia de Polícia. Contou detalhes de sua vida. Tomou água, comeu biscoitos. Pediu um remédio para dor. Disse que ali se sentia segura e pedia para não voltar para casa ou para o hospital. Já havia sido internada várias vezes e não queria mais tomar medicamentos porque se sentia lúcida. Era uma tarde de sexta-feira e quando a equipe chegou já eram quase dezoito horas. A jovem não queria sair. Tinha medo porque a psicóloga estava com aparelho ortodôntico. A assistente social lembrava sua mãe. Não aceitava que lhe tocasse. Gritou com as atendentes. Foi necessário muita conversa para acalmá-la e convencê-la a acompanhar a equipe. Ela perguntou se iria ver novamente a Delegada e sorriu pela primeira vez quando a Delegada falou que sim. Então perguntou: Posso lhe dar um abraço mesmo a senhora sendo Delegada? E se despediu com um abraço prometendo que iria voltar. Já eram quase dezenove horas de uma sexta-feira de fevereiro!

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